quarta-feira, 3 de abril de 2013

Apenas sentar esta ok



[...] alguma coisa ou alguém pode nos machucar? Vamos pegar alguns desastres de verdade. Suponha que perdi meu emprego e estou seriamente doente. Suponha que todos meus amigos me deixaram. Suponha que um terremoto destruiu minha casa. Posso ser machucada por tudo isso? Claro que penso que sim. E seria terrível que tais coisas acontecessem. Mas podemos ser realmente machucados por tais eventos? A prática nos ajuda a ver que a resposta é não.
Não que o ponto da prática seja evitar sentir-se machucado. O que dizemos que nos “machuca” ainda acontece: posso perder meu emprego; um terremoto pode destruir minha casa. Mas a prática me ajuda a lidar com as crises, a passar por isso sem dificuldades. Enquanto estivermos imersos em nosso machucado, seremos um saco de aflição de pouca utilidade para qualquer um. Se não estivermos embrulhados em nosso melodrama de dor, por outro lado, mesmo durante uma crise, podemos ser úteis.
Então o que acontece quando realmente praticamos? Por que o sentimento de que a vida pode nos machucar começa a enfraquecer com o tempo? O que se passa?
Apenas um eu voltado para si mesmo, um eu apegado a mente e corpo, pode ser machucado. Esse eu na verdade é um conceito formado por pensamentos em que acreditamos; por exemplo, “se eu não conseguir isso, serei miserável”, ou “se isso não funcionar comigo, será horrível”, ou “se eu não tiver uma casa para morar, isso é realmente terrível”.
O que chamamos de eu nada mais é que uma série de pensamentos aos quais estamos apegados. Quando estamos absorvidos em nossos pequenos eus, a realidade — a energia básica do universo — praticamente nem é percebida.
Suponha que eu sinta que não tenho amigos, e que sou muito solitária. O que acontece quando sento e medito com isso? Começo a ver que meus sentimentos de solidão na verdade são apenas pensamentos. De fato, estou simplesmente sentada aqui. Talvez esteja sentada sozinha em minha sala, sem alguém com quem combinei um encontro. Ninguém me ligou e sinto-me solitária.
Na verdade, contudo, estou apenas sentada. A solidão e a angústia são simplesmente meus pensamentos, meus julgamentos de que as coisas deveriam ser diferentes do que são. Não enxerguei através deles; não reconheci que minha angústia é fabricada por mim. A verdade factual é que estou simplesmente sentada em minha sala.
Leva algum tempo antes de vermos que apenas sentar lá está OK, está tudo bem. Apego-me ao pensamento de que se não tiver uma companhia prazerosa que me apóie, sou miserável.
“Nothing Special”, loc. 1096
 Charlotte Joko Beck (EUA, 1917 ~ 2011)
Fonte:  http://darma.info/trechos/2013/04/apenas-sentar-esta-ok/
Imagem:  http://global.sotozen-net.or.jp/por/practice/zazen/howto/images/htdzazen01.jpg
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