sábado, 24 de julho de 2010

Composição



E é sempre a chuva
nos desertos sem guarda-chuva,
algo que escorre, peixe dúbio,
a cicatriz, percebe-se, no muro nu.

E são dissolvidos fragmentos de estuque

e o pó das demolições de tudo
que atravanca o disforme país futuro.
Débil, nas ramas, o socorro do imbu.
Pinga, no desarvorado campo nu.

Onde vivemos é água. O sono, úmido,

em urnas desoladas. Já se entornam,
fungidas, na corrente, as coisas caras
que eram pura delícia, hoje carvão.

O mais é barro, sem esperança de escultura.


Carlos Drumond de Andrade



Composição

1967 - JOSÉ & OUTROS
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