terça-feira, 19 de maio de 2009

Os velhos e o tempo

É mais um dia como qualquer outro . O Sol aparece lentamente mas não radiante ou bucólico, apenas como frestas fugitivas no meio do concreto armado, mesmo ao meio dia não se pode perceber a totalidade de seu brilho, - pois a massa densa e cinza da poluição, da sempre a impressão de chuva, acredito até que passamos a pensar da mesma forma de tanto vê-lo.

Junto ao Sol como um trem descarrilhado, desgovernado, traz junto o fétido cheiro da cidade, um turbilhão de sons, como uma sinfonia de Paganini as cores vermelhas dos outdoors e dos jornais não deixam sombra de dúvida do que será mais este agonizante dia.

Como mortificante é a rotina, burocrática, robótica do dia, de todos os dias. Deve ser pior ainda os que não almejam, não desafiam, simplesmente vagam como peixes dentro de um aquário sem perceber a mediocridade de suas infelizes vidas, suas infelizes ilusões, aqueles que as tem.

No meio dos prédios desta megalópole um pequeno aquário em forma de apartamento, ali há mais de cinqüenta anos um casal divide todas as virtudes e os sacrifícios desta luta quase insana pela sobrevivência.

Como todos os dias colocaram a mesa para o café da manhã, passaram pelo estreito corredor embolorado e paredes descascadas. Só percebemos a existência de vida, através de velhas fotos amareladas pelo tempo, apenas sorrisos, paisagens, brindes, como se a vida fosse aqueles segundos diante de uma máquina fotográfica. Quem saberá daqueles rostos? De tanto olharem já não enxergam, física e mentalmente cegos de tanta vida, talvez com medo de encararem velhos fantasmas ou medo de terem um minuto de lucidez e perderem as amarras da velha, mas conhecida rotina.

Mesmo porque só estampamos nas paredes as vitórias, as derrotas encaixotamos nos velhos armários sob montanhas de papeis inúteis, muitas vezes cruéis, olhados pelas frestas do inconsciente onde o medo e a transparência ficam mais evidentes às sombras das rugas e nas trêmulas mãos.

Por aquele banheiro verde escuro com a tampa do vaso quebrada e a pia enferrujada, passaram filhos e netos, Hoje apenas a solidão, e torneira vazando.

Ao meio dia o cheiro de monóxido de carbono se mistura ao bolor e poeira dos tapetes do “aquário”. E gordurosamente o almoço é apreciado.

O barulho os tiros e os corpos pelas ruas aumentam, mas a rotina anestesia todos os sentidos. As sirenes das ambulâncias, resgates, polícias, parecem estar instaladas na sala.

Mas por algum motivo talvez interferência na natureza, configurações planetárias, efeito estufa, el nino. Quem saberá? Um estrondo e um silêncio. Tudo havia se modificado; paredes, cores, intenções, aflições... O olhar deste casal mudou, o mundo parou, tudo , absolutamente tudo ficou dissipado, nada ameaçava aqueles olhares, nada amedrontava mais. Não havia mais o cheiro de mofo, a torneira não pinga mais.

Aqueles fascinantes milésimos de segundos dos olhares do velho casal, transbordaram numa mágica difusão de toda sabedoria universal. Foi apenas 3,658 milésimos, menos que meia piscada de um olho humano, mas foi a eternidade do momento que levou o casal a entender toda a perspectiva de suas vidas nada foi mais belo que aquele momento, nada! Era o vazio, o total.

As mãos dadas, sinal das palavras ausentes, imprimiam como numa foto rejuvenescida o entendimento . Não precisava fala , gestos , apenas olhar eterno, terno, profundo e célere, como uma obra de Giotto. Aquele escasso e miserável tempo foi o suficiente para entenderem qual a finalidade de suas vidas.

Numa manchete pendurada em uma banca de jornal entre as várias estupidez da vida humana aparecia:

Casal de velhos encontrados mortos em prédio abandonado”, de mãos dadas e sorrindo um para o outro.

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